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Notas do livro Crepúsculo dos ídolos - Nietzsche

Desde muito Nietzsche é meu filosofo favorito. Espero que este pequeno tributo auxilie a compreender o magnânimo empreendimento do pensador.

Ajuda a ti mesmo: então todos te ajudarão. Princípio do amor ao próximo.

Que não sejamos covardes em relação aos nossos atos! Que não os abandonemos uma vez consumados! - O remorso é indecente.

Quão pouco é preciso para ser feliz! O som de uma gaita de foles - Sem música a vida seria um erro.

On ne peut penser et écrire qu’assis (G. Flaubert) Só se pode pensar e escrever sentado. Te peguei, niilista! O sedentarismo é justamente o pecado contra o Espírito Santo. Apenas os pensamentos caminhados têm valor.

Aprender a ver - habituar o olho à calma, à paciência, a deixar que as coisas se aproximem; adiar o juízo, aprender a envolver e cercar o caso particular por todos os lados. Esta é a primeira preparação para a primeira espiritualidade: não reagir imediatamente a um estímulo, mas lançar mão dos instintos que inibem e isolam. Aprender a ver, segundo compreendo, é quase aquilo que o modo de falar não filosófico chama de vontade forte: o essencial, aí, é precisamente não “querer”, é poder suspender a decisão. Toda falta de espiritualidade, toda vulgaridade, repousa sobre a incapacidade de resistir a um estímulo - é preciso reagir, segue-se cada impulso. Em muitos casos, semelhante coação já é patologia, declínio, sintoma de esgotamento - quase tudo que a rudeza não filosófica designa pelo nome “vício” é apenas essa incapacidade fisiológica de não resistir.

Às vezes, o valor de uma coisa não se encontra no que com ela se alcança, mas naquilo que por ela se paga - naquilo que ela nos custa. Dou um exemplo. As instituições liberais deixam de ser liberais tão logo sejam alcançadas: não há, posteriormente, piores e mais radicais lesadores da liberdade do que instituições liberais. Sabemos, afinal, o que elas conseguem fazer: elas minam a vontade de poder, elas são o nivelamento de montanhas e vales elevados a categoria moral, elas apequenam, acovardam e incitam à busca de prazeres - com elas triunfa sempre o animal de rebanho… Liberalismo: em linguagem clara, transformação em animais de rebanho… Enquanto ainda se luta por elas, essas mesmas instituições produzem efeitos bem diferentes; elas realmente promovem a liberdade de uma maneira impressionante. Olhando-se com mais atenção, é a guerra que produz esses efeitos, a guerra por instituições liberais, que, enquanto guerra, faz os instintos liberais perdurarem. E a guerra educa para a liberdade. Pois o que é liberdade? Ter a vontade de ser responsável por si mesmo. Conservar a distância que nos separa. Tornar-se mais indiferente à fadiga, à dureza, à privação, inclusive à vida. Estar pronto a sacrificar homens à sua causa sem descontar de si próprio. Liberdade significa que os instintos viris, que se alegram com a guerra e com a vitória, possuem o domínio sobre os instintos da “felicidade”. O homem liberto, e tanto mais o espírito liberto, pisoteia a espécie desprezível de bem-estar com que sonham merceeiros, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas. O homem livre é guerreiro.

Primeiro princípio: deve-se ter necessidade de ser forte - caso contrário, nunca chegamos a sê-lo.

O gênio - em obras, em ações - é necessariamente um esbanjador: sua grandeza está no fato de se gastar… O instinto de autoconservação é, por assim dizer, tirado dos gonzos; a pressão avassaladora das energias transbordantes lhe proíbe qualquer proteção e cautela desse gênero. As pessoas chamam isso de “sacrifício”; elas enaltecem o seu “heroísmo”, sua indiferença em relação ao próprio bem-estar, sua dedicação a uma ideia, a uma grande causa, a uma pátria: apenas mal-entendidos… Ele derrama, transborda, se gasta, não se preocupa com fatalidade, de maneira funesta, involuntária, da mesma forma que o transbordamento de um rio é involuntário. Mas porque as pessoas devem muito a esses explosivos, também lhes deram muito em troca, por exemplo, uma espécie de *moral superior… Este é, afinal, o modo de ser da gratidão humana: ela entende mal seus benfeitores.*

Aqui a vista é livre. - Pode ser elevação da alma quando um filósofo se cala; pode ser amor quando se contradiz; é possível, da parte do homem dedicado ao conhecimento uma cortesia que minta. Não foi sem sutileza que se disse: “Il est indigne des grands caeurs de répandre le trouble, qu’ils resentent” - É digno dos grandes corações manifestar a perturbação que sentem: apenas precisamos acrescentar que não ter medo do mais indigno pode ser igualmente grandeza de alma. Uma mulher que ama sacrifica sua honra; um homem dedicado ao conhecimento, e que “ama”, talvez sacrifique sua humanidade; um deus que amava se tornou judeu…

Imaginemos naturezas às quais, por alguma razão, falte a aprovação pública, que saibam que não são consideradas benéficas, úteis - aquele sentimento de chandala, o sentimento de não ser considerado como igual, mas como excluído, indigno, impurificador. Todas essas naturezas possuem a cor do subterrâneo em seus pensamentos e ações; nelas tudo se torna mais pálido do que naquelas sobre cuja existência repousa a luz do dia. Porém quase todas as formas de existência que hoje respeitamos viveram outrora nessa atmosfera meio sepulcral: o homem de ciência, o artista, o gênio, o livre-pensador, o ator, o comerciante, o grande descobridor… Enquanto o sacerdote foi considerado o tipo supremo, toda espécie valiosa de homem foi desvalorizada. Aproxima-se o tempo - eu garanto - em que o sacerdote será considerado como o tipo mais baixo, como nosso chandala, como a espécie de homem mais mentirosa, mais indecente… Chamo a atenção para o fato de que mesmo agora, sob o mais ameno regime de costumes que alguma vez já se tenha dominado na Terra, ao menos na Europa, toda a vida à parte, todo prolongado, demasiado prolongado estar por baixo, toda forma de existência insólita, opaca, nos faz compreender aquele tipo de criminoso leva à perfeição. Todos os inovadores de espírito levam na testa por algum tempo o signo pálido e fatalista do chandala: não porque sejam assim considerados, mas porque eles mesmos percebem o terrível abismo que os separa de tudo o que é tradicional e honrado. Quase todo gênio conhece a “existência catilinária” como um de seus desdobramentos, um sentimento de ódio, vingança e rebelião contra tudo que já é, que não mais se torna… catilina - a forma de preexistência de todo César.

As coisas boas são deveras dispendiosas: e sempre vale a lei de quem as possui. Tudo o que é bom é herança: o que não é herdado é imperfeito, é começo…

A rigorosa sustentação de gestos importantes e seletos, a obrigatoriedade de viver apenas com pessoas que não se “deixam ir” são perfeitamente suficientes para tornar uma pessoa importante e seleta: em duas ou três gerações já está tudo interiorizado. É decisivo para o destino dos povos e da humanidade que se comece a cultura pelo lugar certo - não pela “alma” (como era a funesta superstição dos sacerdotes e semi sacerdotes): o lugar certo é o corpo, o gesto, a dieta e a fisiologia, o resto é consequência… É por isso que os gregos são o primeiro acontecimento cultural da história - eles sabiam, eles faziam o que era necessário; o cristianismo, que desprezava o corpo, foi a pior desgraça da humanidade até agora.

Goethe não foi um acontecimento alemão, mas europeu: uma tentativa grandiosa de superar o século XVIII mediante um retorno à natureza, mediante uma ascensão à naturalidade da Renascença, uma espécie de auto superação por parte daquele século. Dele, tinha os instintos mais fortes: a sensibilidade, a idolatria da natureza, o caráter anti-histórico, idealista, irreal e revolucionário (este último é apenas uma forma do irreal). Ele se serviu da história, da ciência natural, da Antiguidade, bem como de Espinosa, sobretudo da atividade prática; ele se cercou apenas de horizontes cerrados; não se desligou da vida, mas se introduziu nela; não desanimou, e tomou a seu cargo, assumiu e assimilou tanto quanto foi possível. O que ele queria era totalidade; ele combatia a separação entre razão, sensibilidade, sentimento e vontade (pregada por Kant, o antípoda de Goethe, numa escolástica das mais apavorantes), ele se disciplinou para o todo, ele se criou… Em meio a uma época de inclinações irreais, Goethe foi um realista convicto: ele disse sim a tudo que nessa época era lhe apresentado - ele não teve experiência maior que a daquele ens uealissimum chamado Napoleão. Goethe concebeu um homem forte, extremamente culto, hábil em toda a vida corporal, com autodomínio, com respeito por si mesmo, que pode ter a ousadia de se permitir toda a extensão e riqueza da naturalidade, que é forte o bastante para essa liberdade; o homem da tolerância, não da fraqueza, mas por força, pois sabe usar em seu proveito mesmo aquilo que faria uma natureza medíocre sucumbir; o homem para o qual nada mais existe de proibido a não ser a fraqueza, seja o seu nome vício ou virtude… Semelhante espírito liberto se encontra em meio ao universo com um fatalismo alegre e confiante, na crença de que apenas a parte isolada é reprovável, de que tudo se redime e se afirma no todo - ele não nega mais… Mas semelhante crença é a mais elevada de todas as crenças possíveis: eu a batizei com o nome de Dioniso.

Goethe é o último alemão que respeito; ele teria sentido três coisas que sinto - e também nos entendemos acerca da “cruz”… Perguntam-me com frequência para que exatamente escrevo em alemão: em parte alguma eu seria mais lido do que em minha pátria. Mas quem sabe, afinal, se desejo mesmo ser lido hoje? - Criar coisas nas quais o tempo gaste seus dentes em vão; esforçar-se por alcançar uma pequena eternidade na forma, na substância - nunca fui modesto o bastante para pedir menos de mim. O aforismo, a sentença, nos quais sou o primeiro a ser um mestre entre os alemães, são as formas da “eternidade”; minha ambição é dizer em dez frases o que qualquer outro diz num livro - o que qualquer outro não diz num livro.. O meu gosto, que pode ser o contrário de um gosto tolerante, também nisso está longe de dizer sim em bloco: ele absolutamente não gosta de dizer sim, antes prefere dizer não e, mais do que tudo, prefere não dizer nada…

Meu sentido de estilo, para o epigrama como estilo, despertou quase instantaneamente no contato com Salústio. Não esqueci o espanto do meu venerado professor Corssen quando teve de dar a nota mais alta ao seu pior aluno de latim - num instante eu estava pronto. Conciso, severo, com tanta substância quanto possível em seu fundamento, uma maldade fria em relação à “palavra bela”, também ao “sentimento belo” - nisso me descobri. Será reconhecida em minhas obras, até em meu Zaratustra, uma ambição muito séria pelo estilo romano, pelo aere perennius mais duradouro que o bronze no estilo. Não foi diferente no meu primeiro contato com Horácio. Até hoje, poeta algum proporcionou o mesmo encanto artístico que me foi dado desde o início por uma ode horaciana. Em certas línguas não se pode nem mesmo querer o que foi alcançado aqui. Esse mosaico de palavras em que cada uma delas, com som, com lugar, com conceito, derrama a sua força à direita e à esquerda e sobre o todo, esse minimum em extensão e número de signos - tudo isso é romano e, se quiserem acreditar em mim, nobre par excellence. Toda a poesia restante, em comparação, se torna algo popular demais - mera tagarelice sentimental…

Nada melhor do que Tucídides para curar do deplorável tingimento idealista dos gregos que o jovem “classicamente formado” leva para sua vida como recompensa por seu adestramento ginasial.

FALA O MARTELO


“Por que tão duro?” - perguntou certa vez ao diamante o carvão de cozinha: “Não somos parentes próximos?”

Por que tão moles? Oh, meus irmãos, essa é a pergunta que os faço: não sois - meus irmãos?

Por que tão moles, por que cedeis e condescendeis assim? Por que há tanta renegação em vossos corações? Tão pouco destino em vossos olhares?

E se não quereis ser destinos e implacáveis: como podereis algum dia - vencer comigo?

Pois todos os criadores são duros. E deverá vos parecer bem-aventurança imprimir vossa mão nos milênios como se fossem cera.

Bem-aventurança, escrever na vontade de milênios como se fosse bronze mais duros que o bronze - mais nobres que o bronze. Só o inteiramente duro é mais nobre.

Esta nova tábua, oh meus irmãos, coloco acima de vós: tornai-vos duros! ***