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Revisão do livro - A paisagem moral

Hoje concluí a leitura do livro A Paisagem Moral de Sam Harris. Mais uma vez o autor me surpreendeu, tocou em um assunto tabu com extrema elegância e coesão, IMHO acertando em cheio em suas premissas e inferências. De leitura não tão acessível como suas obras sobre o novo ateísmo, A Paisagem Moral tem um teor científico e, ao menos em parte, marcado pela bagagem técnica do neurocientista.

A tese central do livro pode ser sintetizada na seguinte passagem:

A moralidade e os valores dependem da existência de mentes conscientes - e especificamente do fato de que tais mentes podem experimentar várias formas de bem-estar e sofrimento neste universo. As mentes conscientes e seus vários estados são fenômenos naturais, é claro, totalmente presos às leis da natureza (quaisquer que sejam elas). Portanto deve haver respostas certas e erradas a questões sobre moralidade e valores que potencialmente recaiam no escopo da ciência. Sob esse ponto de vista, algumas pessoas e culturas estão certas (em maior ou menor grau) e outras estarão erradas quanto ao que consideram importante na vida.

Segue uma de minhas passagens preferidas:

O que significaria para um casal decidir que deveriam ter um filho? Provavelmente significa que eles acham que seu bem-estar tenderá a crescer por terem trazido mais uma pessoa ao mundo; também deveria significar que esperam que seu filho tenha uma vida que, na média, valha a pena ser vivida. Se não esperassem essas coisas, é difícil imaginar por que desejariam uma criança.

Porém, a maioria das pesquisas sobre felicidade sugere que as pessoas na  verdade ficam menos felizes após terem filhos e só voltam a se aproximar de seus níveis prévios de felicidade depois que os filhos saem de casa. Digamos que você conheça essas pesquisas, mas imagina que seu caso será uma exceção. Aí, é claro, outro conjunto de pesquisas mostrará que a maioria das pessoas acredita que é exceção a regras desse tipo: não existe nada mais comum do que achar que você é acima da média em inteligência, sabedoria, honestidade, etc. Mas você também conhece essas pesquisas e nada disso o surpreende. Talvez, no seu caso, todas as exceções sejam verdade e você venha a ser um pai ou uma mãe tão feliz quanto espera ser. Porém, um estudo famoso sobre o sucesso humano sugere que uma das formas mais certeiras de uma pessoa diminuir sua contribuição à sociedade é formar uma família. Como você veria sua decisão de ter um filho se soubesse que todo o tempo que passou trocando fraldas e brincando de Lego o impediria de encontrar uma cura para o mal de Alzheimer que na realidade estava bem ao seu alcance?

 

Essas não são perguntas vazias. Mas tampouco são o tipo de pergunta a que alguém poderia responder. A decisão de ter um filho  sempre poderá ser tomada no contexto de expectativas razoáveis (e não tão razoáveis) sobre o bem-estar futuro de todas as partes envolvidas. Parece-me que pensar dessa forma é, mesmo assim, uma maneira de contemplar a paisagem moral.

 

Mesmo que não consigamos conciliar perfeitamente a tensão entre bem-estar pessoal e coletivo, não há razão para achar que de modo geral estão em conflito. O vento certamente sopra na mesma direção. Não é nem um pouco difícil vislumbrar as mudanças globais  que melhorariam a vida de todo o mundo: todos estaríamos melhor num mundo no qual gastássemos menos os nossos recursos nos preparando para matar uns aos outros. Descobrir fontes de energia limpa, cura de doenças, avanços na agricultura e novas maneiras de facilitar a cooperação são objetivos gerais cujos esforços valem a pena. Temos todos os motivos para acreditar que persegui-los nos levará para o alto nas escarpas da paisagem moral.

 

Harris tem como premissa fundamental para sua moralidade a busca pelo maior nível de felicidade coletivo. Sendo o maior nível de sofrimento coletivo o pior estado que a humanidade poderia estar e a felicidade geral o melhor. Com isso em mente ele sugere uma analogia entre um campo com picos e depressões como sendo os maiores e menores níveis de felicidade coletiva, respectivamente - sua paisagem moral resumidamente. Por fim, argumenta que a ciência e o método científico ajudam a responder as questões que surgem em nossa busca para alcançar altos picos na paisagem moral.

Estou com preguiça de prosseguir; recomendo a leitura. ;)