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A beleza do método científico, segundo Huxley

Um texto extraordinário de Thomas Huxley, meu trabalho aqui foi traduzir; o texto necessita de uma segunda revisão - que eu farei em breve - de qualquer forma seu objetivo já fica claramente exposto.


O método científico é nada mais que a expressão do necessário modo de trabalhar da mente humana. É simplesmente o modo em que todo o fenômeno é raciocinado, desenvolvido. Não há diferença, entre as operações mentais de um homem de ciência e aquelas de uma pessoa normal. Entre as operações e métodos de um padeiro ou açougueiro medindo seus bens nas escalas comuns, e as operações de um químico ao fazer uma difícil e complexa análise pelos meios de sua balança de alta precisão. Não é o caso que as escalas e a balança diferem nos princípios de sua construção ou na maneira de trabalhar; mas o feijão em um caso é pesado em um eixo infinitamente menor que no outro.***

Você provavelmente entenderá melhor se eu lhe der um exemplo familiar. Vocês todos já ouviram, ouso pensar, que os homens de ciência trabalham pelos meios da indução e dedução, e que com ajuda destas operações, eles, em certo senso, espremem da Natureza certas coisas, que são chamadas de leis naturais, e causas, e disso, por certa habilidade da sua parte, eles constroem hipóteses e teorias. E é imaginado por muitos que as operações da mente normal não podem

  • de nenhuma forma - serem comparadas a estes processos, e que eles precisam ser adquiridos através uma certa perícia no ofício. Por ouvir todas estas grandes palavras você pode pensar que a mente de um homem de ciência deve ser constituída de uma maneira diferenciada daquela do homem normal; mas se você não se assustar pelos termos, vai descobrir isso é uma falácia, que todos estes terríveis aparatos são utilizados por vocês cada dia e em cada hora de suas vidas.

Existe um incidente bem conhecido em uma das peças de Moliere, que o autor faz o herói expressar grande prazer quando lhe é dito que o mesmo vinha praticando prosa por toda sua vida. No mesmo sentido eu confio que você se confortará, e se deliciará com você mesmo, na descoberta que você tem agido de acordo com os princípios da filosofia indutiva e dedutiva durante o mesmo período. Provavelmente não há nenhum aqui que não tenha, no curso de seu dia, tido a ocasião de colocar em movimento um complexo treinamento de raciocínio, do mesmo tipo, apenas diferenciando o grau, em que o homem científico vai em busca de desvendar os fenômenos naturais.

Uma circunstancia muito trivial serve para exemplificar isso. Suponha que você entre numa fruteira procurando por uma maçã - você pega uma, dá uma mordida nela, você nota que ela está azeda; você a inspeciona e percebe que ela é verde e dura. Você pega outra, aquela também é verde e dura, e azeda. O vendedor oferece-lhe uma terceira; mas, antes de mordê-la, você examina-a, e descobre e ela é dura e verde, e imediatamente diz que você não a levará, ela deve ser azeda, como aquelas que você já testou.

Nada pode ser mais simples que isso, você pensa; mas se você se der o trabalho de analisar e traçar os elementos lógicos que foram feitos pela sua mente você ficará surpreso. Em primeiro lugar, você fez uma operação de indução. Você descobriu que, em duas experiências, ser verde e dura implica em uma maçã azeda. Foi assim na primeira maçã, e foi confirmado na segunda. Verdade, é uma base muito pequena, mas já é o suficiente para elaborar uma indução. Você generalizou os fatos e esperou encontrar azedas as maçãs que também são verdes e duras. Sobre isso, você elaborou uma lei geral, que todas as maçãs que são verdes e duras são azedas; e isso é uma perfeita indução. Bem, tendo em mãos sua lei natural quando é oferecido para você uma maçã verde e dura , você diz, “Todas as maças verdes e duras são azedas; essa maçã é verde e dura; sendo assim essa maça é azeda”. Esse treino de raciocínio é o que os lógicos chamam de silogismo, e tem todas suas varias partes e termos - sua premissa maior, sua premissas menor e sua conclusão. E pela ajuda de um pouco mais de raciocínio, que, se descritos, seriam exibidos em dois ou três outros silogismo, você chega a sua conclusão final “Eu não levarei essa maçã”. Então, veja bem, você estabeleceu uma lei por indução e sobre aquilo você fundou uma dedução, e raciocinou a conclusão do caso particular. Bem, agora suponha, em mãos de sua lei, que depois de um tempo você está discutindo as qualidades das maçãs com um amigo: você dirá a ele, “É uma coisa curiosa, eu descobri que todas as maçãs verdes e duras são azedas!” Seu amigo lhe responde, “Mas como você sabe isso?” Você prontamente responde, “Ah, porque eu as experimentei variadas vezes e em todos os casos elas se mostraram assim.”. Bem, se nós estivéssemos falando de ciência ao invés de senso comum, chamaríamos aquilo de uma verificação experimental. E, se ainda confrontado por oposição, você vai além e diz, “Eu ouvi um pessoal em Somersetshire e Devonshire, onde um grande número de maçãs cresce, que eles observaram o mesmo. Também é o caso em Normandia, e na América do Norte. Em resumo, eu descobri que essa é uma experiência universal sempre que alguém se dedica ao assunto.”. Nesse ponto, seu amigo, a menos que ele é uma pessoa muito pouco racional, concorda com você e está convencido que você está certo da conclusão que desenhou. Ele acredita, embora talvez não saiba que acredita, que quão maior a quantidade de verificações - quanto mais experimentos foram feitos, e os mesmos resultados obtidos - que quão maior a variedade de condições que os mesmos resultados são encontrados, mais está certa a conclusão, e ele evita perguntar mais. Ele percebe que o experimento foi tentado sobre diversas circunstancias, tempo, lugares e pessoas, com o mesmo resultado; e ele acredita que a lei que você compôs deve ser razoável, e provavelmente acreditará nela.

Em ciência nós fazemos o mesmo; o filósofo exercita precisamente as mesmas faculdades, apenas de uma maneira muito mais delicada. No inquérito científico se torna uma questão de obrigação expor uma possível lei para todo o tipo de verificação, e cuidar, mais ainda, que seja feito intencionalmente, e não por mero acidente, como no caso das maçãs. E em ciência, como na vida comum, nossa confiança em uma lei é a exata proporção da ausência de variação nos resultados da verificação experimental. Por instância, se você soltar o artigo que você provavelmente tem em sua mão, ele vai imediatamente cair no chão. Esta é uma verificação muito comum de uma das melhores estabelecidas leis da natureza - a gravitação. O método pelos quais homens de ciência estabeleceram a existência dessa lei é exatamente a mesma que aquela pela qual nós estabelecemos a proposição trivial sobre o fato de todas as maçãs verdes e duras serem azedas. Mas nós acreditamos de uma maneira direta porque toda a experiência da humanidade a verifica, e nós podemos verificar por nós mesmos a qualquer momento; essa é a fundação mais profunda que uma lei natural pode descansar.

Com o intento de provar que o método de estabelecer leis na ciência é exatamente o mesmo utilizado na vida comum. Vamos agora nos dedicar a outro assunto (na verdade é apenas outra face da mesma questão), e esse é o método que, através da relação entre certos fenômenos, nós provamos que alguns são causa de outros.

Eu pretendo colocar o caso claramente para você, e eu vou mostrar o que significo por outro caso familiar. Vou supor que você, ao descer de manhã para sala de estar de sua casa, descobre que sua chaleira e algumas colheres que foram deixadas no quarto na tarde anterior não estão mais lá - a janela está aberta, e você observa a marca de uma mão suja na abertura da janela, e talvez, em adição aquilo, você nota a marca de um sapato no jardim lá fora. Todos esses fenômenos chamaram sua atenção instantaneamente, e antes que dois segundos tenham passado você diz, “Oh, alguém forçou a janela, entrou no quarto e levou minhas colheres e bule!” Essa frase sai de sua boca em um momento. E você vai provavelmente adicionar “Eu sei que alguém o fez, estou certo disso!” Você tenta dizer exatamente o que você sabe; mas na realidade você está dando a impressão do que viu, em todos os detalhes essenciais, uma hipótese. Você não sabe de tudo isso; não é nada mais do que uma hipótese rapidamente formada em sua mente. E uma hipótese fundada em um longo treino de induções e deduções.

O que são essas induções e deduções e como você chegou nessa hipótese? Você observou, em primeiro lugar, que a janela estava aberta; mas por um trem de raciocínio envolvendo muitas indicações e deduções, você provavelmente já tenha chegado a conclusão que - janelas não se abrem por elas mesmas; então você conclui que algo abriu a janela. Uma segunda lei geral que você chegou da mesma forma é que bules e colheres não saem de seu lugar espontaneamente, e você constatou que eles não estão onde você os deixou, que eles foram removidos. Em terceiro lugar, você olha para as marcas nas janela e a marca de calçado lá fora, e você pensa que em toda sua experiência anterior que aquela forma nunca foi produzida por nada além da mão de um ser humano; a mesma experiência mostra que nenhum outro animal a não ser um ser humano veste sapatos com taxas neles como as que produzem aquelas marcas no cascalho. Eu não sei, mesmo se eu pudesse descobrir todos aquelas ‘dicas perdidas’ que foram descritas, que elas nos apontariam para qualquer outra conclusão! De qualquer fora as leis que definem nossa presente experiência são fortes o suficiente para o propósito presente. Você depois chega a conclusão que esse tipo de marcas não são deixadas por nenhum outro tipo de animal a não ser o homem, ou são encontradas em algum outro lugar além nas mãos e sapatos de homens. Você tem, em frente, uma lei geral, fundada em observação e experiencia, e essa - lamento dizer - é uma muito universal - que alguns homens são ladroes; e você assume de vez à partir de todas essas premissas - e isso é o que constitui uma hipótese - que o homem que fez as marcas fora e na janela também, abriu a janela, foi dentro da sala, e roubou o bule e colheres. Você chegou na vera causa; você assumiu uma causa, ela é clara, é competente em produzir todo o fenômeno observado. Você pode explicar odos os fenômenos apenas pela hipótese de um ladrão. Mas essa é uma conclusão hipotética, na justiça que você não tem nenhuma prova, é apenas altamente provável por uma série de raciocínios indutivos e dedutivos.

Suponho que sua primeira ação, assumindo que você é uma pessoa de senso comum ordinário, e você estabeleceu essas hipóteses para sua própria satisfação, vai muito provavelmente procurar a polícia, e enviá-los a procura do ladrão, com o objetivo de recuperar sua propriedade. Mas justamente quando você está pensando nesse objetivo, uma pessoa entra na sala, e ao saber seu intento replica, “Meu bom amigo, você está tomando resoluções abruptamente. Como você sabe que o homem que realmente fez essas marcas também levou suas colheres? Pode ter sido um macaco que as tomou e o homem poderia apenas estar a procura do animal.” Você provavelmente responderia, “Bem, isso é possível, mas você não percebe que isso é contra toda a experiência da forma que bules e colheres são subtraídos; sendo assim, sua hipótese é menos provável que a minha.” Enquanto vocês estão conversando desta forma, outro amigo chega, um daquele bom tipo que havíamos falado anteriormente. E ele pode dizer, “Oh meu querido senhor, você certamente está sendo precipitado. Você é muito presunçoso. Você admite que todas essas ocorrências aconteceram quando você estava dormindo e não pode saber de nada sobre o que de fato aconteceu. Como você sabe que as leis da Natureza não foram suspendidas durante a noite? Pode ser que houve alguma forma de interferência sobrenatural nesse caso.” Ele declara que sua hipótese é uma que não pode ser demonstrada na realidade, e que por nenhum meio você pode estar certo que as leis da Natureza são as mesmas quando você está dormindo assim como quando você está acordado.

Você é incapaz de responder esse tipo de raciocínio instantaneamente. Você sente que seu valioso amigo colocou você sob alguma desvantagem. Não obstante, você se sente convencido de que você está certo, e você fala para ele, “Meu caro amigo, eu posso apenas ser guiado pelas possibilidades naturais neste caso, e se você for gentil o suficiente para ir para o lado e me permitir passar, eu vou procurar a polícia”. Bem, vamos supor que sua jornada foi um sucesso, e que por sorte você encontrou um policial; que eventualmente o ladrão foi encontrado com sua propriedade em mãos, e que as marcas correspondem a suas mãos e botas. Provavelmente qualquer juri vai considerar esses fatos uma ótima verificação experimental de suas hipóteses, tocando a causa do fenômeno observado em sua sala de estar, e irá agir de acordo.

Agora, neste caso suposto, eu utilizei um fenômeno comum, para que você pudesse observar quais são os diferentes passos em um ordinário processo de raciocínio, se você se der o trabalho de analisar cuidadosamente. Todas as operações que eu descrevi, você verá, estão envolvidas na mente de qualquer pessoa racional, direcionando-o à conclusão da atitude necessária culminando na obtenção dos itens furtados. Eu disse que você é levado, neste caso, para a conclusão pele exato mesmo trem de pensamentos que um homem de ciência usa quando ele está buscando descobrir a origem e as leis dos mais ocultos fenômenos. O processo é, e sempre deverá ser, o mesmo; e precisamente o mesmo modo de pensar foi utilizado por Newton e Laplace em seus trabalhos para descobrir e definir as causas dos movimentos dos corpos, como você, com seu próprio senso comum, poderia utilizar para detectar um ladrão. A única diferença é a natureza do inquérito ser mais obscuro, cada passo precisa ser cuidadosamente observado, para que não haja um único problema nas hipóteses. Uma falha nas muitas premissas do dia a dia pode ter pequeno ou nenhum efeito na correta conclusão nossas hipóteses; mas, na busca científica, uma falácia, pequena ou grande, é sempre de importância, e à longo prazo, produtora de erros perniciosos, senão fatais.

Não permita se a ser enganado pela noção comum que uma hipótese não é confiável simplesmente porque é uma hipótese. É muitas vezes argumentado, à respeito de alguma conclusão científica, que, apesar de tudo, é apenas uma hipótese. Mas o que temos para guiarmo-nos em nove décimos das coisas mais importantes de nossas vidas senão hipóteses, e geralmente mal embasadas? Então na ciência onde as evidências das hipóteses são sujeitas à mais rígida avaliação, nós devemos certamente buscar o mesmo curso. Você pode ter hipóteses e hipóteses. Um homem pode dizer, se ele quiser, que a lua é feita de queijo: isso é uma hipótese. Mas outro homem, que devotou grande tempo e atenção ao assunto, e se equipou dos mais poderosos telescópios e resultados de observações de outros, declara que na sua opinião ela é provavelmente composta de materiais muito similares àqueles que a Terra é composta: e isso também é apenas uma hipótese. Mas eu não preciso lhe dizer que existe uma enorme diferença no valor dessas hipóteses. Essa última é baseada em sólido conhecimento científico é certamente valiosa; e aquela que é meramente uma adivinhação aleatória é provável que tenha pouco valor. Cada grande passo em nosso progresso para descobrir causa foi feito exatamente da mesma forma que eu lhes descrevi. Uma pessoa observando a ocorrência de certos fatos e fenômenos pergunta, naturalmente, que processo, que tipo de operação sabida que ocorre na Natureza aplicada a este caso particular vai resolver o mistério? Uma vez que você tenha uma hipótese; seu valor vai ser proporcional ao cuidado e completude que ela foi testada e verificada. É assim nestes assuntos como é nos problemas comuns da vida prática: a suposição do tolo será tola, enquanto a suposição do sábio será sábia. Em todos os casos, você percebe que o valor do resultado depende da paciência e fidelidade em que o investigador aplica suas hipóteses a cada possível tipo de verificação.

O original se encontra aqui.